Nathanael Alves: o pássaro que no nos salvará da bala



Um cronista que decifrou as entrelinhas dos fatos como poucos



Por Simão Vieira de Mairins

Não cheguei a tempo. Quando desci as malas na Paraíba, em 2006, ele já havia partido. Poderia nunca tê-lo conhecido. Mas uma equação complexa da vida o colocou em meu caminho. Nathanael Alves parou de escrever há algumas décadas. Há quem diga que morreu. Mas tenho provas de que continua vivo. E precisa ser lido.

No segundo período do curso de jornalismo recebemos uma missão na disciplina de língua portuguesa: fazermos um resgate da crônica na Paraíba. Eu mal conhecia o caminho da sala de aula para casa. Era só mais um pernambucano invadindo o território. Não sabia nem por onde começar a pesquisa.

Entre os primeiros amigos que fiz por aqui, entretanto, estava Naíza, com quem acabei fazendo junto o trabalho e que me deu um dos presentes mais preciosos que já ganhei na vida: um livro surrado, com muitas páginas mofadas e a lombada descolando. 

Naíza é neta de Nathanael e o livro é O pássaro e a bala, uma coletânea de crônicas escritas por ele ao longo da década de 1970 e publicada em 1983, pela editora de A União. Minha amiga já não vejo há um bom tempo. Mas o presente, embora tenha à disposição a suíte mais confortável da minha estante, não sai da cabeceira da cama.

Nathanael me ensinou a ler o que não é escrito e que é nas entrelinhas que quase sempre encontramos a verdade dos fatos. Nathanael é de uma espécie em extinção no jornalismo. Um poeta mais interessado nas dúvidas dos comos e porquês do que nas certezas frias dos quês, quens e quandos. Sorte nossa que ele é imortal.

Num dos dois textos que fazem as vezes de prefácio de O pássaro e a bala, Gonzaga Rodrigues - outro cronista de marca maior - garante que as cerca de duzentas crônicas reunidas no livro não são o melhor da obra de Nathanael, que era avesso à ideia de reunir suas crônicas em livro, vendo-se no exercício de cronista da mesma maneira que se enxergava quando entregava leite, ainda menino, em Arara, fazendo sua entrega dia a dia, sem validade longa. Mas nisso nós temos que discordar, porque esses seus textos trazem a história da Paraíba, do Brasil, da América Latina e do mundo de um jeito que nenhum historiador pode trazer: com os olhos do dia, nos transportando para dentro de cada instante.

A crônica que dá título ao livro é um exemplo muito claro disso. Num tempo de crise, com o jornalismo se afundando na lama que produz ao tentar se salvar, a sensibilidade de Nathanael é uma mão oferecendo socorro. 

Transcrevo abaixo O Pássaro e a Bala, publicada em 1980. Leia e passe adiante. Nathanael precisa continuar vivo.

O Pássaro e a Bala


Por Nathanael Alves

Na missa ecológica um pássaro desde de sua liberdade e pousa no microfone do cardeal Vilela, em Salvador, Bahia. Em outra missa, em El Salvador, uma bala voa de uma carabina e rasga o coração do arcebispo Oscar Romero.

Em cidades homônimas da mesma América, o pássaro e a bala. A vida e a morte em rezas da mesma igreja, em apelos da mesma gente. Ou de gentes conterrâneas de infortúnios quase iguais, da mesma fauna e da mesma flora.

Um galo-de-campina pousou no microfone baiano e por menos que tivesse piado acabaria por fazer o mais veemente discurso ecológico desses espaços devastados.

A bala que atravessou o coração de Dom Romero silenciou parte de um salmo em composição. Os dois silêncios - o do pássaro e o da bala - reportam o que resta de puro e o que sobra de amargo nesta América de veias cada vez mais rasgadas.

A montagem das duas cenas comporia uma cinematografia patética. Comporia o único tempo fílmico de uma poética e dolorida terra em que o bem e o mal se desentenderam como se não fossem ponta nem cabeça da mesma condição humana.

O que os assassinos de Romero fizeram foi apressar a ressurreição de Marti, Chamorro, Tiradentes e todos os mártires da América. Quaisquer que tenham sido a origem da bala, a marca da arma, a ordem política para o assassinato, soviética ou americana, sobre o cadáver de Romero nascerão as plantas de uma nova civilização em que as injustiças serão varridas, senão para sempre, ao menos enquanto seus nomes forem lembrados.

O pássaro baiano não era uma armadilha. Não era uma arma prestes a detonar no peito do Cardeal Vilela. Era uma ave que voara de sua liberdade para celebrar a união da natureza com o homem, brutal e quase definitivamente suprimida.

Chorem os salvadorenhos, cantem os baianos o mesmo salmo. A vida e a morte são frações de um mesmo todo, partes de uma mesma sina. O pássaro não era uma bomba,  a bala não era um pássaro. Só a América é a mesma grande chaga, cascão da mesma ferida num certo lado Sul, num certo lado Norte. 

Quem matou Romero?

Quem matou Romero foi a América. O consumo. O suborno. A tortura denunciada. A liberdade suprimida. Matou-o um pássaro quando ele erguia a hóstia, matou-o a televisão. O Individualismo. Mataram-no todos os males da América.

O pássaro de Salvador poderia ser uma bomba. A bala de El Salvador poderia ser um pássaro. Os bispos e arcebispos de toda a América estão marcados para morrer.

Exceto os que condenaram João XXIII. Exceto os que não simpatizaram com a mansidão de Paulo VI. Exceto os que não gostaram do riso de João Paulo I. Exceto os que renegaram as viagens de João Paulo II. 

Os galos-de-campina estão voando em poucas e quase inteiramente devastadas florestas americanas. Podem ser pássaros. Podem ser balas. No mundo em que vivemos, já não é fácil distingui-los.


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