Nada a temer nos corações dos meninos, dos amantes e das mães desesperadas



O José Américo é um deserto de gente. Terra arrasada, com escombros por toda parte, o lixo mostrando a direção do vento ou seguindo o fluxo da água, a depender da estação. O chão rasgado exige calma. Mas é difícil achar quem tenha. À noite, sob aquela fotografia amarelada, entrecortada por tantos vazios de luz, qualquer movimento é um perigo. Os preconceitos de defesa recomendam que nem saia. Se estiver na porta, que entre. Quando não for possível, corra. Mas há quem fique. Quem passeie. Quem não esteja nem aí.




Por Simão Vieira de Mairins | Março de 2017


No José Américo, viver é um absurdo. Por isso mesmo os meninos são um choque. Muitos, soltos pelas ruas, fazendo o que querem, a qualquer hora do dia, em bando ou sozinhos. Enroscando pipas nos fios de alta tensão. Num raio de três quilômetros, não há parque, não há praça, nenhum balanço sequer. Para ser justo, uma lanhouse na avenida principal. Mas nos bolsos furados não tem trocado que sustente. Aqui, acolá, um terreno baldio. Por trás do Radegundis Feitosa, sem dúvidas, o maior. Metade, matagal. A outra é chão de terra batida, mas não muito assentada. Um poeirão do qual os meninos tomaram de conta. 

Das catorze às dezesseis, quando os especialistas sugerem evitar o sol e a cautela orienta não enfrentar o bairro, eles estão lá, sete dias por semana. Descalços, sem protetor solar nem medo do crime. Nessa faixa do dia, a lista de ocorrências é variada: furto, assalto, assédio, estupro, execução. É o horário da escuridão iluminada, quando há pouca gente nas ruas e as presas são fáceis. Mas os meninos são invisíveis. Ou parte da paisagem.

Se ninguém mandar entrar, eles ficam lá. No escuro mesmo. Enquanto der para enxergar a bola. Quando a muriçoca dá na canela e a fome aperta no bucho, eles dão uma pausa. Mas antes de William Bonner aparecer na janela eles já têm cruzado a porta pra rua de novo. Agora, nas calçadas, com os chinelos nas mãos e as correias entre os dedos. Dão voltas em todo o bairro. Correm. Brigam. Brigam muito. Afinal, algum perigo tem de haver. 

Já viram um homem desviar de uma bala na porta de casa, ajudaram uma menina a fugir do tarado da Pop na base do grito e flagraram muitos momentos inapropriados do casal da rua da academia. A propósito, há os namorados. Sofá de casa, se não é tédio, é perigo. A calçada é um lugar seguro. Se alguém vem de dentro, o cachorro avisa. De fora, é difícil que os notem. O poste não acende. Tem sempre um escuro para se esconder. 

Há permanentemente ladrões fazendo ronda. Não há um dia em que não se leve pelo menos um celular. Nos mais lucrativos, vão-se motos, carros e cofres, ou contas bancárias nos sequestros-relâmpago. Para os amantes das calçadas, relâmpago é um problema duas vezes: porque clareia e porque traz chuva. Quando pega fogo e o coração faz carreira desesperado, não tem prejuízo pior que água fria.

E por falar em amor e desespero, entre os dois, encontrei uma mãe. Era Carnaval. João Pessoa tirou licença de sua gente. A escola fechou, a creche fechou, o mercadinho fechou, a sogra fechou, o marido desapareceu junto de todas as outras pessoas. E aí se dana tudo quando menino começa a aperrear. Quem desapega solta na buraqueira. Quem não solta tem que balançar. Jogar na linha, fazer finta e bater pênalti com o cuidado de não fazer gol para não agitar.

Era segunda-feira e aquela mulher era o Desespero que Dalí não pintou. O sol já tinha partido e só restava a penumbra rala dos refletores internos do Radegundis. O poeirão estava à disposição. Nessa noite não tinha nem tropa mirim para simular um mínimo de segurança. Era só ela, com um pequeno de colo nos braços e um maiorzinho debaixo da trave, recebendo e chutando, numa partida de bobinho imaginário. Enquanto as pernas aguentassem. Enquanto um não cansasse e o outro não chorasse. 

Quando um menino sumir, vamos ficar comovidos. Os corpos daquele casal vão chocar a cidade, violentados e carbonizados no meio da mata. E nenhum crime superará a crueldade contra aquela família, numa segunda-feira de Carnaval. 

Nós viveremos evitando isso. Eles vão viver enquanto não acontece. E todos podemos morrer do mesmo jeito.


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