Geraldo: o único homem capaz de deter o Barcelona



Conheça a história desse que domina como ninguém a arte de vencer os invencíveis
Foto Divulgação/Escola Paulo Freire

Por Simão Vieira de Mairins

O Barcelona impressionou o mundo mais uma vez. Foi um espetáculo. Pela virada e pela goleada. Humilhou os franceses e os xeques do Catar. Coisa linda. Só se falou nisso da tarde pra noite. Ofuscou as facas e flores do 8 de Março e o discurso florianiano de Michel Temer. Jogo que entrou para a história. Foi um Cometa Halley. Nem todo mundo vai viver para ver um fenômeno desse de novo. Mas dê licença: com Neymar, Messi, Suárez e Iniesta, menos que isso é decepção.

É a mesma decepção que caía dos olhos dos torcedores de Tetê. Figura excêntrica, não nasceu para perder. Na verdade, tem um instinto selvagem pela vitória. Nos anos 1990, fez seu nome no sertão pernambucano derrubando adversários nas rinhas humanas que circulavam as cidades em turnês. Seu auge foi quando, ao lado de outros dois colegas, derrubou o temido He-Man do Nordeste, outra figura cuja história rende e merece um aparte que não farei, mas que você pode ler mais tarde neste link.

Naquela luta contra He-Man, há controvérsias sobre o real papel de Tetê na vitória. Mas esse é um detalhe que fica também para outra hora. Até porque ele não seguiu na luta e se dedicou de cabeça mesmo foi à bola. Fora das quatro linhas, como treinador. Predador como sempre. Intolerante à derrota. Feito para ganhar. Sempre.

A habilidade para montar e treinar times vencedores lhe rendeu suas maiores glórias. Tetê, o invencível. O temido. Mas dê licença novamente: ele sempre vencia com os melhores. Tetê é, ele próprio, um Barcelona. O Barcelona do Sertão.

A primeira regra de sua cartilha sempre foi o entrosamento. Costumava montar um time com os jogadores mais excepcionais e seguir com eles para onde fosse. Foi graças a isso que muito menino de família carente conseguiu ganhar bolsa para estudar em escola particular. Alguns fizeram carreira e tem discípulo dele até jogando na Europa hoje em dia.

Vencer com os melhores não lhe tira nenhum mérito. Mas, sem dúvidas, engrandece a vitória de quem consegue lhe derrubar. E é aí que entra em cena Geraldo, o desafiante.

A psicologia da retranca

Um galego branquelo contador de histórias que eu conheci quando ele já tinha lá seus quarenta e tantos anos arrancando os fios de cabelo e pesando na barriga. Talvez a descrição não bata com o relato, mas preciso dizer também que conheci pouca gente tão séria quanto.

Geraldo era aquele professor meio pai. Mas quando chegava tempo de campeonato, a coisa ficava séria. E, quando o adversário era Tetê, assunto pessoal.

Pouca gente conseguiu vencer um time treinado por Tetê em Salgueiro. Na verdade, em Pernambuco, que foi dominado várias vezes. Entre esses poucos, estava Geraldo. Talvez o maior dessa minoria.

Nós, os jogadores, éramos quase sempre pernas de pau. Com exceção de um ou outro em quem se depositavam as maiores esperanças, ninguém sabia jogar. Mas Geraldo dava um jeito. A primeira missão era colocar na nossa cabeça que poderíamos vencer. Só isso garantia presença religiosa nos treinos. Puxados. Na véspera das estreias, tínhamos sempre certeza de que seríamos campeões. Mas que, se não fôssemos, não seria o fim do mundo.

Em quadra, a missão era não levar gol. Nosso jogo era na retranca, explorando o que desse para sair dos pés de cada um. Meus maiores feitos foram da marca do pênalti para trás. Se fiz gol, não lembro. Mas já derrubei muito pivô e fechei muita trave tirando vantagem de ter crescido primeiro que meus parceiros e adversários.

Perdemos algumas vezes. Empatamos muito com essa estratégia que tinha, antes de tudo, o dom de transformar qualquer jogo em um tédio. Nada acontecia. Para quem via, um saco. Para nós, o objetivo sendo cumprido. Batíamos o centro contando os minutos para a partida acabar.

E ganhamos. Ganhamos no vacilo. Quando os adversários relaxavam. Tínhamos uma arma secreta. Um baixinho chamado Ramón. Nome de jogador. Na tática da retranca, ninguém desconfiava de sua habilidade. Mas quando a bola sobrava ele nunca errava. Sobrou duas vezes. Em dois jogos. Contra Tetê.

A história é ingrata e tem memória ruim. Costuma lembrar com mais facilidade dos grandes vencedores. Mas é preciso fazer justiça com os perdedores que ganham de vez em quando. Nós também temos nosso dia de glória.

Geraldo nos ensinou a perder. E a saber que também poderíamos ganhar. Eu derrubaria muito Neymar. E Ramón não vacilaria.

Aos sobreviventes da Champions League, eu deixo uma sugestão: chamem Geraldo, enquanto há tempo.


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