Técnica para deletar memórias inúteis e liberar espaço no cérebro



Isso é importante, isso é necessário

Por Simão Vieira de Mairins | 25 de novembro e 2015

Estados Unidos, Suécia, Camarões, Itália. Taffarel pegou um pênalti. Roberto Baggio mandou para fora. Aldair, Márcio Santos, Cafu, César Sampaio, Dunga, Raí. Bebeto, que foi pai. Zinho e Romário. Branco, canhoto que só não consta nos registros como o melhor batedor de faltas porque um dia apareceu Roberto Carlos. Ricardo Rocha, pernambucano, beijou o chão quando voltou. Nos minutos que antecederam a histeria de Galvão Bueno pelo Tetra, eu estava comendo linguiça com farofa, na sala da casa da minha tia Socorro. Comi tudo que pude, enquanto ninguém estava prestando atenção, todos vidrados na tela da TV – já das coloridas e a maior da família, mas tenho certeza de que não era muito grande. Quando Baggio mandou para fora, todos gritamos. Eu chorei – mas disfarcei. Aproveitei para pegar os últimos pedaços de linguiça que estavam no prato, enquanto minha mãe não estava vendo. Ela não deixava a gente comer linguiça por causa da doença da carne de porco, que até hoje não sei se existe mesmo.

A linguiça foi partida antes de ir para o fogo. Isso é outra certeza. As laterais tinham aquela crosta fina da fritura. Se tivessem sido jogadas na panela inteiras e cortadas só depois de prontas, as marcas de faca seriam evidentes e, nas laterais, ficaria visível aquela textura esponjosa.

Naquele ano, 1994, eu ia para a escola num coletivo escolar. Digo coletivo escolar para que vocês entendam que estou falando de um carro que pegava quantas crianças coubessem, as caregava para a aula e depois as levava de volta para casa. Mas preciso fazer um complemento, para que ninguém crie uma imagem mental equivocada do que estou dizendo. O coletivo era um opala branco, que não tinha trava na porta de trás e pelo menos uma vez por mês quebrava no caminho. O motorista era seu Zé Catita. Quando ele não podia, era o filho quem dirigia.

Um dia desses, uma amiga postou uma foto no Facebook e entre as pessoas que apareciam no registro estava a mulher que trabalha no guichê de venda de passagens da empresa de ônibus que eu constumava utilizar para ir a Recife.

Um dia, no jardim de infância, um cara entrou na sala e me deu um peteleco.

A marca da primeira televisão da minha casa era Telefunken e ela demorava a ligar.

Na minha casa tinha dois pés de pitanga. Eu nunca gostei de pitanga. Um dia resolvi experimentar. Continuei sem gostar.

Eu tinha um caminhãozinho pipa de brinquedo com a capota branca e o tanque amarelo. Um dia, numa das cenas que eu inventava para brincar sozinho, na casa da minha avó, soltei essa (ou algo parecido): “Ninguém jamais vai saber que meu caminhão tá carregado de maconha”. Minha tia chegou e ouviu na hora. Naquele tempo, eu não conhecia a palavra descontextualização. Mas entendi o que ela significava. Levei uma chamada antes que meu outro personagem pudesse falar: “Pare, em nome da lei. Tivemos uma denúncia de que seu caminhão está cheio de maconha”. Bom para meu vilão. Fora minha tia, ninguém acabou sabendo mesmo de seu carregamento.

Há uns três, quatro reveillóns, eu tive uma dor de barriga dos infernos e voltei para casa antes da meia noite. Rompi o ano no banheiro (AVISO DO EDITOR: TROCADILHOS NÃO SERÃO TOLERADOS).

O primeiro sofá da minha mãe era verde.

Eu tinha uma fortuna de tazos e perdi numa tacada só para meu vizinho.

Quando era criança eu tinha uma cadela e ela usava uma coleira marrom.

Eu tinha uma reunião hoje e esqueci.

Se alguém conhecer alguma técnica para deletar memórias inúteis e liberar espaço no cérebro, favor informar nos comentários.

Agradecido.

Gostou do texto? Cadastre aqui seu e-mail para receber as atualizações do blog e curta nossa página no Facebook! =)




COMENTE COM O FACEBOOK