Fez selfie no caixão de Eduardo Campos e foi a Paris



Certas vaidades bloqueiam qualquer filtro de bom senso que o ser humano possa ter

Foto: Agência Brasil/ Fabio Rodrigues Pozzebom
Por Simão Vieira de Mairins | 15 de novembro de 2015

Mark Zuckerberg deve estar comemorando, a essa altura, os bons resultados de mais uma tragédia internacional que sensibilizou brasileiros. Com nosso estoque eterno de desgraças e a disposição que temos para fla-flus odiosos, somos uma das matérias-primas mais valiosas para sua máquina geradora de buzz-ad-money. Ele é um menino esperto e não tem boas intenções. Mas de pelo menos uma acusação o rapaz é inocente: a de tornar tudo isso ainda pior. Isso fica por nossa conta.

Umberto Eco criticou a internet há alguns meses e disse que ela liberou “uma legião de imbecis”, amplificou a voz do “idiota da aldeia” e o promoveu a portador da verdade. Essa colocação veio carregada de opiniões com as quais eu, particularmente, não concordo. Mas isso fica para outro texto. Agora, me interessa um pequeno trecho: a liberação dos imbecis.

Eu não diria que, necessariamente, abriram os portões do Reino e eles apareceram. O fenômeno, talvez, seja mais freudiano: “liberaram os imbecis que existem dentro de nós". Não discordo de quem acredita que o eu idiota prevaleça em alguns seres humanos. Mas, na internet, é mais complexo que isso. A imbecilidade brota – geralmente em surtos epidêmicos extremamente contagiosos. E, às vezes, de onde menos se espera.

Por um lado, essa percepção soa positiva, ao deixar margem para acreditarmos que a imbecilidade tem cura, por ser, pelo menos em parte, uma manifestação isolada, seja gerada por uma situação de estresse particular ou pela histeria coletiva que situações como os ataques em Paris provocam. Por outro, ela planta um imbecil no coração de cada ser humano que habita a face da Terra e tem pelo menos um plano de dados no celular.

Quando Eduardo Campos morreu, além de todo esse script de guerra que é seguido agora entre os que choram lama e os que choram lágrimas bleu, blanc et rouge, houve também um fenômeno que se repete agora, o da vaidade que bloqueia qualquer filtro de bom senso que o ser humano possa ter. E assim o leva a coisas como fazer selfies ao lado de um caixão ou aproveitar a #prayforParis para mostrar aos invejosos que já foi à França.

Isso, mais que uma simples exposição ao ridículo – o ridículo, inclusive, em muitos casos, merece mais aplausos do que vaias –, revela que estamos perdendo, rapidamente, nossa capacidade de executar uma operação simples: pensar antes de dizer qualquer coisa.

A impressão que tenho é de que as redes sociais, principalmente o Facebook e o Twitter, criaram em certos indivíduo uma versão particular dos piores veículos de massa: máquinas ávidas por dar a notícia primeiro, a qualquer custo, mesmo que isso imponha passar por cima de alguns princípios e ofereça o risco de um vexame. Tudo isso com a palavra “exclusivo” em letras garrafais estampada no início da frase e a informação de que “nossos repórteres estiveram lá”.

No fim das contas, mesmo sem perceber, quem jura abalar no choro elegante pela cidade Luz, pode estar chafurdando numa lama muito pior que a de Mariana. #PrayPorVocês


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