Menina dos olhos



Mesmo que, de tão igual, sua diferença não se mostrasse mais que a indiferença de quem passava e lhe fazia vista grossa, ela parecia não se importar com quase nada, sempre bastante segura de si. 

Foto: Simão Mairins/Grafite: Gigabrow
Por Simão Vieira de Mairins | 01/02/2015

Ela me encarava sem pudor. Um olhar fixo. Insistente. Dava voltas, virava as costas, dava a volta, virava outra coisa, mas sempre voltava ao mesmo lugar. E os olhos eram os mesmos. Sisuda. Mas era um siso perturbador, que disparava o arsenal que ela carregava nos ombros e me apontava impiedosamente, fazendo explodir por dentro ou corromper como madeira fraca, que, a um simples toque, se esfacela.

De certa forma, apesar das sombras que se sobrepunham ao seu corpo minúsculo, ela impunha respeito. Mesmo que, de tão igual, sua diferença não se mostrasse mais que a indiferença de quem passava e lhe fazia vista grossa, ela parecia não se importar com quase nada, sempre bastante segura de si.

E continuava a olhar para mim. Parecia que eu era mesmo o foco daquele olhar cortante, que, por mais que se tentasse resistir, no fim, conseguiria me persuadir. Não adiantaria eu me esconder ou fugir.

"E continuava a olhar para mim."


No entanto, sequer consegui olhar em seus olhos. Era algo que ia além da timidez corriqueira. Respirei sem ar. Engoli sem gosto. Pensei em ir até lá, mas voltei de onde nem cheguei a ir. Talvez o sentimento de culpa. Por ela e por mim. Pelo que eu não conseguiria deixar para trás. De certo, também, pelo que eu não conseguiria ir à frente. Na verdade, fiquei sem jeito.

Aquilo, a cada minuto, se tornava mais hamletiano. No fim das contas, eu daria uma migalha em troca de quase nada. Alimentaria algum vazio, mas não dispersaria a fumaça da consciência. Ir naquela direção e fazer o que se encaminhava, de fato, não seria nada de mais. Por mais que minhas pernas fossem, meu pensamento jamais daria as costas e voltaria ao mesmo lugar sem carregar o incômodo peso da inércia cúmplice. Ir iria me fazer tornar pública a postura do homem. O homem que faz, independente de ser, também, o que destrói.

E, divagando, alguma coisa no meu lado direito chamou, por um instante, mais atenção, e acabei, subitamente, esquecendo aquele olhar. Foi quando ela veio e puxou a minha mão esquerda, dizendo:

- Tio, compra aí uma cerveja?


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