Quem aperta o gatilho não é quem dispara a bala



Em meio às revoltas que estão acontecendo em São Paulo e já começam a ganhar força no Rio de Janeiro, disparar minhas balas contra os policiais, sem dar nome aos bois, é fazer a mesma coisa que os telejornais

Por Simão Vieira de Mairins | 13/06/2013

Meu pai era policial e, segundo minha mãe, antes de morrer, disse que ela me deixasse trabalhar em qualquer coisa, menos na polícia. Acho que eu não trabalharia mesmo. Mas talvez isso tenha ajudado à farda não ser uma das opções. Bem, mas isso é apenas uma contextualização. Não vim aqui para falar mal da polícia.

Em meio às revoltas que estão acontecendo em São Paulo e já começam a ganhar força no Rio de Janeiro, disparar minhas balas contra os policiais, sem dar nome aos bois, é fazer a mesma coisa que os telejornais e jornais estão fazendo com os manifestantes: colocar todos no mesmo saco (sem trocadilhos com a Rota).

Tem muito policial bandido. Isso é fato. Tem muito policial que se acha o dono do mundo. Também é fato. E também tem uma combinação ainda mais perversa, que é a do bandido, que se acha dono do mundo e, para completar, não tem preparação técnica nem psicológica para a função (o que, pelo que está relatado aqui, pode ser personificado pelo que atirou, sem motivo, numa repórter da Folha durante a manifestação - foto abaixo).

Repórter da Folha atingida por bala de borracha (Foto: Diego Zanchetta/Estadão)

Uma coisa que entendo, entretanto, é que se um subalterno faz merda, o superior é o primeiro culpado. Há um ano, mais ou menos, escrevi este texto sobre protestos similares que aconteceram em Pernambuco e a repressão foi bem parecida. E o que tenho a dizer é basicamente a mesma coisa.

Estamos construindo um front em que de um lado está a polícia e do outro o povo. E em meio à convulsão, a generalização vem antes que se possa pensar qualquer coisa. E amanhã o estudante revoltado com o preço da passagem vai acordar odiando seu vizinho que é PM e nem estava de serviço hoje. Quem dá as cartas, entretanto, está bem sentado em seu gabinete, dando as coordenadas.

A polícia levou o choque, a cavalaria e até um tanque para a rua porque o comando mandou. O comando que compra e dispara a bala com o dedo do policial, que amanhã não terá mais cara, será apenas o símbolo de tudo que o povo indignado mais odeia.

Talvez meu pai soubesse disso. Soubesse que ia para a rua defender o Estado e que tinha que defendê-lo de qualquer forma. E que na manhã seguinte o Estado ia para Paris, ou para Miami. E ele teria que voltar para a rua e encontrar o povo novamente.



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1 comentários :

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Anônimo
AUTOR
13 de junho de 2013 18:12

Pobre policial... Tem gente "pensando" por ele. Não passa de mais uma peça no jogo de xadrex... Treinado pra garantir, à força, que os passos dos grandões não parem.

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