Um habeas corpus para entrar



Imagem: reprodução/Tv Cultura

Na última semana, parte da população do bairro conhecido como Pinheirinho, em São José dos Campos/SP, decidiu se armar com paus e lanças improvisadas, defendendo-se com capacetes de moto e escudos feitos de tonéis. Com uma barricada armada, eles esperaram a polícia chegar para cumprir uma ordem de reintegração de posse expedida pela Justiça de São Paulo.

Ninguém apareceu. Mas ainda apareceria. E, como os moradores não eram soldados em guerra, apenas miseráveis defendendo o pedaço de terra que roubaram de um ladrão para morar, não havia estratégia. Poucos dias depois a polícia, enfim, chegou. De surpresa. Montou um cerco e, duas horas antes do previsto, conseguiu cumprir a ordem: remover todos dali.

Ao todo, foram 2 mil policiais e dezenas de viaturas, efetivo semelhante ao utilizado nas ocupações de morros no Rio de Janeiro. Houve fogo, criança correndo, mulher sendo agredida. Vários feridos. Indícios de que houve mortes. Mas no final, apesar dos destroços, ficou tudo limpo. Higiênico.

Digo isso por que, talvez, higienização seja a melhor palavra para definir a ofensiva que o governo de São Paulo está empreendendo e muitos outros também devem começar a empreender, numa cruzada em que Copa do Mundo, especulação imobiliária e interesses de elites corruptas estão intrinsecamente ligados. Fazer desaparecerem da paisagem os barracos, os pedintes e os viciados. Fazer do novo Brasil um lugar agradável, dando um sumiço na incômoda sujeira com apenas algumas rápidas vassourada, daquelas que espalham o lixo para parecer que o ambiente está menos sujo.

Alckmin é jovem, fala bonito e tem cara de moderno. Serra tuita de instante em instante. Kassab acha feio sujar a cidade. O centro financeiro da capital São Paulo cheira a 2036. Mesmo assim, o feudalismo por ali ainda é mais que simples ranço cafeeiro. A elite nobre ainda se cerca de administradores públicos e juízes que defendem seus interesses e dão as ordens para as tropas atacarem quando for conveniente, mantendo do outro lado do muro os plebeus cujos impostos pagam os salários dos soldados que lhes atacam. E sem nenhum pingo de vergonha de mobilizar um efetivo de guerra contra miseráveis a favor de um criminoso contra quem nunca foi usado nem um par de algemas.

É nessas horas que entendemos que estar nas ruas nem sempre é simplesmente estar nas ruas. Eu estou, porque sou livre. Naji Nahas e Daniel Dantas também estão, porque estão livres. A população de Pinheirinho também está, porque não tem para onde ir.

A sensação é de que o povo ficou preso pelo lado de fora, com a diferença de que não precisa de habeas corpus para entrar como os bandidos precisaram para sair. Basta querer. Bora lá?


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1 comentários :

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Jana
AUTOR
23 de janeiro de 2012 05:05

Poxa, brilhante, Simão!
Pinheirinho é um exemplo triste da cruel realidade que a especulação imobiliária e o latifúndio tem desenhado no país.
Em João Pessoa, não falta muito para que se aplique este mesmo esquema.
Como é o caso da comunidade Porto do Capim e da Penha, a primeira "dará" lugar a um Porto Turístico e a segunda a um Resort monumental.
Não podemos esquecer que o São José nasceu desta mesma situação. Os primeiros habitantes viviam tranquilos na Praia de Tambaú e foram exortados
para aquela parte da cidade em nome da modernização da cidade, simbolizada pelo Hotel Tambaú. O restante dos moradores vieram do interior do estado em busca de uma vida melhor.
No São José, o Estado só passa de vez em quando, a maior parte das vezes para dar cacete no povo. Outras vezes, é o grande comerciante da região que dá
uma passada por lá vestido de Papai Noel e cercado da turma da Rataplan. O conflito entre o bairro nobre, Manaíra, e a comunidade é tamanho que
representantes dos moradores do asfalto já advogaram, em reuniões do orçamento democrático, que se investissem em muros para isolar os moradores e
só permitir uma saída para eles. Até agora, pelo que sei, isto não aconteceu, mas depois de murado, você duvida que se exigirá a aquisição de caveirões?
O atual modelo de ocupação da cidade é símbolo de uma relação histórica de latifúndio e concentração de renda. Se Najin Nahas, se diz dono da região, muitos já foram os donos de grandes parte de João Pessoa. A família Torres era dona da Torrelândia, os donos da fazenda "Boi só" do Bairro dos Estados... enfim, o problema tá lá atrás e precisa ser resolvido com
firmeza e coragem, duas coisas que gestão nenhuma tem condições de aplicar em suas ações, em virtude da estrutura política falida a qual estamos submetidos.
É preciso discutir e construir políticas Públicas eficazes para reverter este processo! E trazer esse debate para o nosso cotidiano, a comunicação deveria assumir este papel.

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