A ditadura da maioria na democracia das vassouras carecas



Foto: Rafael Freire

Vinha chegando ao meu prédio agora há pouco e vi uma movimentação um tanto intensa no saguão onde normalmente acontecem as reuniões de condomínio. Mas, nada demais, até uma moradora me perguntar se eu votaria pela saída ou pela permanência. Eu, sem sequer saber que havia uma eleição, perguntei do que se tratava. E a senhora, com aquele polimento de quem quer ganhar um eleitor, me disse: “é para destituir o síndico”. Com a clássica de sempre (para quando vem alguém com um abaixo-assinado absurdo daqueles que, sem jeito, você tem que dizer não), respondi: “eu moro de aluguel, quem vota é o proprietário. Desculpe”.

Parece desinteresse pelo nível político mais próximo de mim. Mas não é, simplesmente. Confesso que, com tudo que resolvi me ocupar no lado de fora do muro, sobra pouco tempo e paciência para as brigas dos meus vizinhos. Mas o pior de tudo é que, normalmente, no lugar das proposições sempre preferem o teatro.

Bem, mas não é exatamente isso que vem ao caso, agora. O que me surpreendeu no tumulto de hoje foi, primeiro, a quantidade de gente (de todas as reuniões a que fui, a que obteve maior quórum tinha 20% dos moradores. Hoje, acho que até a porquinha-da-índia que a senhora do 503 cria estava por lá). Depois, a quantidade de advogados presentes.

Andei lendo alguns panfletos e comunicados que espalharam por aqui e, pelo que percebi, um grupo anda descontente com uma decisão do síndico: mover ações judiciais contra os inadimplentes (entenda que inadimplentes não são simplesmente aqueles que não puderam pagar a taxa de condomínio do mês passado. Soube de gente – inclusive um deputado, dono de um bloco inteiro aqui – que não cumpre com suas obrigações há anos).

Pela configuração das forças, é muito provável que o síndico perca. Ele até que tem feito um bom trabalho, mas não é lá das figuras mais populares (assumiu a administração do condomínio no tapetão, derrubando o antecessor reeleito). No outro lado, os inadimplentes – dizem por aqui – chegam a superar os 50%.

Daí, entendamos a situação: os errados (inadimplentes) são a maioria, e essa maioria, numa democracia típica, faz prevalecer sua vontade. O resultado desse tumulto, então, deve ser um síndico destituído por que quis obrigar os que vivem às custas dos vizinhos a deixar a condição de sanguessugas.

Passamos o dia reclamando da sujeira de Brasília, mas se olharmos direitinho, a casa ao lado (ou mesmo a nossa própria casa) está cheia de lixo que alguém esqueceu de tirar. Parodiando Renato Russo, eu diria que antes de querermos espanar o mundo, varrer o terreiro da gente ajuda pra caramba.


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3 comentários

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Jana
AUTOR
10 de janeiro de 2012 05:19

Pode crer... É assustador ver esse tipo de coisa, mas é mais comum do que imaginamos. Não só falando do comportamento dos inadimplentes, mas daqueles que, quando síndicos, acham que são Reis. Acho que um condomínio é um espaço interessante para estudar a tal da participação democrática, inclusive nas suas contradições.

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Luiz Antonio Mousinho
AUTOR
10 de janeiro de 2012 06:35

Simão, texto genial, de uma precisão extraordinária. Nada como esse olhar sobre as coisas miúdas da vida diária para a gente ver a superficialidade dessas falas que remetem tudo à Brasília e esquecem como nos portamos -- e veja nosso trânsito, cada dia mais agressivo e assassino. O seu exemplo original e traz aquele efeito de germinação de sugerir pensar o que estamos fazendo de nossas vidas e também ressalta as falhas de certo democratismo. Abração, Luiz Mousinho

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Fabio
AUTOR
11 de janeiro de 2012 03:48

Ótimo texto Simão!

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