Uma entrevista para os que virão ao mundo... depois de nós



Por Simão Mairins | 04/10/2011



Era 1984, e o Brasil ainda vivia sua tentativa mais profícua de provar que as previsões de George Orwell para aquele ano estavam certas. No turbilhão de manifestações que corriam o país, ali – longe demais das capitais, no Rio Grande do Sul, uma greve de alunos parou a principal universidade do estado por um longo período. Resultado: todo mundo teve de recuperar o tempo perdido em dezembro, prolongando-se até janeiro do ano seguinte. No final, para comemorar o fim das férias perdidas, o diretório acadêmico de Arquitetura organizou uma festa na qual a grande atração era uma banda formada por alunos do curso. Nasciam assim os Engenheiros do Hawaii (uma “homenagem” não muy amiga aos alunos do curso vizinho).

Na bateria, ao lado de Humberto Gessinger (vocal e guitarra), Carlos Stein (guitarra) e Marcelo Pitz (baixo), estava Carlos Maltz, um ateu de origem judaica que tinha um pôster de Che Guevara na parede. Sem Stein (que acabou se tornando guitarrista do Nenhum de Nós) e Pitz, e ao lado de Gessinger e Augusto Licks (a clássica formação GessingerLicksMaltz) Maltz deixou de ser o baterista esquisito de uma banda esquisita que saiu do Sul e se tornou o baterista esquisito de uma banda esquisita que conquistou o Brasil.

Hoje, mais de 15 anos após sua saída da banda, Maltz ainda autografa CDs, tira fotos e atende pacientemente a todas as tietagens de fãs dos Engenheiros com quem encontra. Mas vive longe da vida frenética que, segundo ele, levou à separação nada elegante do trio GLM. Astrólogo, ele se dedica hoje, praticamente em tempo integral, à nova atividade. Mesmo assim, garante que nunca deixou a música de lado, e faz questão de ressaltar: “meu instrumento de trabalho continua sendo o ouvido”.

Maltz ao lado de Humberto Gessinger, em João Pessoa/PB

Como é que um baterista materialista e ateu se tornou astrólogo e psicólogo?

Sempre andei atrás de me encontrar comigo mesmo. A Astrologia chegou por essa porta. Depois, na sequência, veio o estudo formal da Psicologia, faculdade e talz... A porta fui eu mesmo... Fui e continuo caminhando nessa direção, que é a única que me parece fazer algum sentido neste mundo: o auto-conhecimento.

O contato com suas origens judaicas, de alguma maneira, mudou sua forma de ver o mundo e lidar com a espiritualidade?

Não sei... Talvez sim... Sei lá... Provavelmente sim, mas não é algo que eu possa explicar assim, racionalmente. Talvez seja algo que esteja guardado em algum lugar espiritual dentro de mim mesmo. Tenho a ver com uma espiritualidade mística judaica muito antiga. Isto já estava lá dentro de mim. Não foi coisa que os meus antepassados mais próximos tenham me passado, eles não eram ligados nessas coisas. É algo que já veio comigo, instalado no meu HD. Uma conexão com algo muito antigo, que eu nem sonhava que existia em mim, e que veio, simplesmente veio.

Depois de se separar de Gessinger e Licks, você montou uma nova banda (Irmandade) e mais à frente, em 2001, gravou um disco solo. Hoje, você se dedica basicamente à Astrologia, não é? Qual o lugar da música na sua vida, agora?

Sou um músico, sempre. No consultório, em meu trabalho com as pessoas, o que faço é escutar a música delas, a canção que suas almas estão cantando, e a que estão querendo cantar. Meu instrumento de trabalho continua sendo o ouvido. Quando olho um mapa astrológico, o que faço é ouvir o que aquele mapa tem a me dizer, a música que está tocando ali.

No ano passado você lançou o livro “Abilolado Mundo Novo”. Como é que surgiu a ideia pra esse trabalho?

Rapá... Eu já estou há um bocado tempo na Internet, falando com as pessoas. O livro nasceu daí, desse diálogo tão rico. A gente discute questões filosóficas sofisticadas, numa linguagem tão simples... Nasceu daí, dessa esquina, do sofisticado e do simples, da minha necessidade de levar pra mais pessoas essas conversas tão interessantes que vêm acontecendo desde 2000. Esses encontros inusitados onde somos apenas quem somos, sem necessidade de medalhas e títulos... Encontros...

Ser escritor faz parte dos seus planos daqui pra frente?

Escritor? Bão... Eu vou escrevendo esses meus trem estranho. Se tiver gente doida o bastante pra publicar, a gente vem publicando, né? Eu gosto desse trem de estar em contato com as pessoas. Escrever um livro é um jeito de estar por aí, se encontrando com as pessoas, trocando umas idéias.

Como você mesmo costuma dizer, mesmo depois de mais de 15 anos que deixou os Engenheiros, muitos fãs ainda o procuram, mandam e-mails, pedem autógrafos etc. Dá vontade de voltar àquele tempo?

Não. Eu sou do Escorpião. E quem anda pra trás é Caranguejo.

Em seu site você diz que “Marcelo Pitz, que era um cara meio zen, não aguentou o estilo neurótico-maníaco-depressivo que os ‘Engenheiros’ cantavam e viviam, e caiu fora”. Na prática, como era esse estilo neurótico-maníaco-depressivo?


Falta de amor, de respeito, de consideração pelas pessoas. Colocar as coisas na frente das pessoas. Dar mais importância à "carreira" do que à amizade entre as pessoas, esse trem...

Os “Engenheiros do Hawaii” acabaram em 1995, quando o trio GLM se separou?

Uai, em 1993... Acho... Não sou muito bão nesses trem de data...

Você tem feito algumas participações em apresentações ao lado de Humberto, como em um dos shows do Pouca Vogal aqui em João Pessoa/PB. Será que existe a possibilidade de um dia ainda vermos a velha formação Gessinger, Licks e Maltz juntos novamente?

Bão... Enquanto os três estiverem vivos, tem, né? Eu mesmo já não me animo muito mais com essas coisas. Tô ficando velho, já não tenho mais saco pra algumas coisas que andam junto com a música. A Música, ela mesma, é maravilhosa, e é maravilhoso a gente ter esse dom, não é mesmo? Como diz o Caetano: "Como é bom poder tocar um instrumento". Mas tem algumas coisas que andam junto com a música que não são brincadeira. As viagens das pessoas, as vaidades, os egossauros-rex, entendes? Não tenho mais idade pra essas coisas. Se um dia a gente aprender a ser amigo e resolver se juntar, três velhos amigos, sem muita pretensão, sem muito “seachismo”, pra rolar um som e deixar uma vibração boa, bonita, ecoando no Éter pros que vêm ao mundo depois de nós, pode me chamar...

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1 comentários :

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Butina.
AUTOR
16 de outubro de 2011 12:23

Esperamos que volte o "GLM" sem "seachismo" da parte de nenhum dos três, ai teria tuda pra dar certo, porque esse é o melhor Power Trio da história !
Grande abraço Maltz !

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