“Os conservadores venceram”



Aos 81 anos, Plínio de Arruda Sampaio – que entrou na política como militante da juventude católica – acredita que a esquerda perdeu espaço dentro da Igreja. Fora dela – acredita – o socialismo ainda é possível

Pouca gente pode contar com tanta propriedade a história política do Brasil quanto ele. Militante da esquerda católica numa época em que padres queriam fazer revoluções, Plínio de Arruda Sampaio elegeu-se deputado poucos anos antes do golpe militar de 1964, quando teve seus direitos políticos cassados e foi exilado. De volta ao Brasil, nos anos 70, tornou-se professor da Fundação Getúlio Vargas e ingressou no MDB. Na redemocratização, chegou a cogitar a criação de um novo partido ao lado de, acreditem, Fernando Henrique Cardoso e Jarbas Vasconcelos. Mas a ideia não vingou e ele acabou sendo um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, pelo qual se elegeu deputado constituinte em 1986.

Em 2010, candidatou-se à presidência da república pelo PSOL, mesmo sem o apoio de algumas alas do partido, e – consciente de que não estava ali para vencer – acredita que cumpriu sua missão ao decidir ser candidato: apresentar o socialismo ao Brasil, algo que – segundo ele – jamais havia sido feito. Nos debates na televisão, deixou alguns adversários em saia-justa e sempre arrancou boas risadas do público que acompanhava as atividades nos estúdios. E quando não foi convidado para um desses debates – o da Folha/Uol – chamou mais atenção do que o evento oficial, respondendo na Twitcam a todas as perguntas que eram feitas para os candidatos. Resultado: primeiro lugar nos trends topics nacionais do Twitter.

Hoje, aos 81 anos, não descarta a possibilidade de se candidatar novamente. Mas deixa claro: “Candidatura é assunto partidário, não pessoal”.



Ócio Hiperativo – Como o senhor entrou na política?

Plínio de Arruda Sampaio
– Desde muito cedo. Nos anos cinquenta, os cristãos resolveram entrar no Partido Democrata Cristão (não confundir com o atual, que é uma legenda de aluguel). Como eu militava na Juventude Universitária Católica (JUC) e esta recomendava a atuação política, filiei-me àquele partido.

A esquerda católica teve uma atuação muito forte na América Latina durante os anos de chumbo. Hoje pouco se ouve falar dessa ala. Os conservadores venceram?

Sem dúvida, os conservadores venceram. Isto aconteceu depois da ascensão de João Paulo II ao Papado.

No período de redemocratização o senhor quase fundou um novo partido ao lado de Fernando Henrique Cardoso, reunindo uma ala descontente do então MDB. Caso tivesse vingado a ideia, como seria esse partido fundado por nomes que hoje não conseguiríamos imaginar juntos em um mesmo palanque?

Seria um partido socialista, no sentido estrito do termo. Algo como o PT, da fundação até 1989.

Uma das suas bandeiras mais antigas é a da reforma agrária. Depois de décadas discutindo a questão, como o senhor acredita que o estado brasileiro avançou (ou não) nessa questão?

Não avançou. Regrediu: o grau de concentração de terra é superior ao do passado.

O povo já entendeu o que é e qual a importância de se fazer (ou não) uma reforma agrária no Brasil?

Infelizmente a grande maioria do povo ainda não percebeu a importância da reforma agrária para a melhoria de sua própria vida.

Quando se candidatou à presidência em 2010, o senhor não recebeu o apoio de algumas alas do seu próprio partido, o PSOL tinha pela frente adversário de peso, apoiados por estruturas milionárias. Acredito que, ali, o senhor tinha convicção de que não venceria o pleito, certo? Por que então encampar a disputa?

Com apoio ou sem apoio de todos os camaradas do PSOL, eu não venceria a eleição. Tinha certeza disso ao entrar na disputa. Entrei para fazer uma coisa que ainda não havia sido feita: apresentar o socialismo à sociedade brasileira.

Com a crise na Europa, tanto governos de direita quanto de esquerda vêm caindo, sofrendo grandes derrotas nas urnas. O senhor acredita que, no final das contas, o que está ruindo de verdade é o modelo de democracia representativa que temos hoje?

A causa mais profunda das rebeliões que sacodem vários países da Europa é a crise sistêmica do capitalismo combinada com uma forte crise econômica mundial.

E, na América Latina, como o senhor analisa o atual cenário político? Com exceção dos conflitos de sempre na América Central, os rompantes de Hugo Chávez e os protestos de estudantes do Chile, as coisas por aqui parecem um tanto apáticas. O senhor concorda?

Concordo. Incluiria apenas o Uruguai entre os países com uma situação política dinâmica.

As ideias daquela esquerda de 50, 60, 70 anos atrás ainda têm espaço no mundo?

Têm mais atualidade do que nunca. Mas entendamo-nos: desde que expurgadas do autoritarismo soviético. Socialismo democrático, isto sim.

O senhor ainda pensa em se candidatar a algum cargo?

Sou um homem de partido. Candidatura é assunto partidário, não pessoal.

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