Morro hoje




Não, não é a carta de um suicida. Mas se fosse, fiquei pensando, o que teria sido minha vida?

A história nasce a cada passo, cada letra, em cada gesto, após cada piscadela de olho. Mas dificilmente conseguimos vê-la viva, antes dos livros. Foi por isso que me peguei analisando os fatos, querendo saber o que será lembrado daqui a quinhentos anos e do que ninguém mais ouvirá falar quando for esquecido pela agenda do noticiário.

Nasci em uma virada de década que muitos dizem importante: caiu o Muro de Berlim, morreu a União Soviética, presidentes começavam a ler um tal de Fukuyama, o Brasil voltava às urnas. Mas, de fato, minha primeira lembrança marcante é a imagem de Roberto Baggio chutando a bola pra fora na final da Copa de 94, sagrando o Brasil tetra-campeão do mundo, que eu vi numa TV de 17 polegadas enquanto comia a linguiça com farofa que os adultos esqueceram naquele momento de tensão.

Naquele mesmo ano de 94, se não me engano, Fernando Henrique, antigo sonho de certa esquerda, derrotava Lula, sonho de outra certa esquerda. Carnaval: no Brasil, futebol e política sempre acabam em folia. Naquele ano todo, o povo só chorou uma vez, quando Ayrton Senna morreu e privou a gente de bater no peito e dizer: Ayrton venceu mais que Schumacher! E daí? Acabamos nos acostumando a ver Barrichello perder.

Não sei se desse vão lembrar pra sempre, mas, enquanto eu viver, minha juventude o levará à frente. Renato Russo com suas letras carregadas em melodias estranhas e acordes fáceis alimentou a adolescência de quando ouvi falar em Che pela boca de uma freira de esquerda. Na verdade, naquele tempo eu nem sabia o que era esquerda. Hoje não sei mais por onde ela anda (a freira).

Quatro anos depois de Baggio, eu descobri que o Brasil também perdia Copas. E me convenceram, naquele momento, de que havia sido da pior forma possível: perder para a França. Nunca entendi porque ser derrotado pelos franceses era tão ruim, do mesmo modo que nunca entendi porque devo odiar os argentinos e chamá-los de hermanos. Não entendi também por que as pessoas param de sorrir, quando, naquele mesmo ano, morreu minha divertida avó.

Passei um tempo esquecido. Quando lembrei, tinha uma banda. Renato Russo, morto, eternamente vivo, claro. Com melodias carregadas, letras nada estranhas e acordes ainda mais fáceis, conhecíamos o pop e, duvidosamente, ganhávamos vida própria. Mas o país só soube que morreu Cássia Eller. Nós também choramos. Mas até hoje não entendo porque os Beatles são tudo isso. John Lennon é uma fraude e Paul McCartney é um saco! Alguém concorda comigo, por favor?

Eu vi morrer a Madre Teresa, a redenção de Mandela, a ascensão de Bush, o mistério de Osama, o enforcamento de Saddam Hussein. Eu vi a princesa assassinada pelos holofotes, o ídolo morto pelo pop e a Internet desfazer qualquer ordem cartesiana que me obrigue a ser cronológico nesse momento em que as lembranças aparecem aos poucos.

Eu vejo continuamente o progresso industrial e tecnológico libertador, que tanto burgueses quanto socialistas falaram, não dar certo. Comprovei que o Capitalismo sofrerá, enquanto viver, de duras crises, onde os culpados nunca sofrem as consequências. Eu vejo Hugo Chávez desperdiçar o momento histórico da Venezuela. Vou ver Fidel Castro morrer. Ainda não sei o que dizer de Lula, vou esperar para refletir com os livros.

Nesse segundo acabaria a história do meu tempo, se eu morresse agora. Mas, certamente, não seria assim que ela iria para os livros. Não é a história do técnico da Globo que manteve as máquinas ligadas para que eu pudesse ver Roberto Baggio perder aquele pênalti que vai ser lida pelo meu filho. Não são meus amigos que vão contar a história do Rock. Não é o gari que limpou a Sapucaí que vai escrever a história do carnaval que é o Brasil. E, assim, meus filhos vão ver o Brasil perder e vencer Copas na tela da Globo, as pessoas vão continuar achando os Beatles o máximo e o Brasil vai continuar colorindo o sumiço do verde e amarelo, enquanto a gente não tomar consciência da nossa história.


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