Eu também sou Tupinambá!



Sedento de heróis, o Brasil ganhou mais um bandido. Negro, índio, brasileiro, não faz discursos na ONU, não marca gols nem vence corridas. Se esconde no mato, lidera massa e faz pouco barulho.

O site da revista Época publicou em matéria do dia 19 deste mês, o perfil do cacique Rosivaldo Ferreira da Silva. Sem ípslons nem dáblios no nome, Babau – como é conhecido – lidera 3 mil tupinambás no sul da Bahia. Sozinho, é acusado de uma dezena de crimes que se resumem ao ataque à propriedade privada da terra. Com sua ficha criminal, o cacique ganhou status de “inimigo público” e é caçado pela Polícia Federal.

Os Tupinambás são o povo com quem Pedro Álvares Cabral teve o primeiro contato, na invasão do Brasil, há 500 e tantos anos. Para os brancos donos do terreiro tupiniquim de hoje, que negam o sangue negro e índio que corre em suas veias, os gentis de 1500 já não existem mais. Segundo eles, os tupinambás de cabelo enrolado, pele negra e sobrenome Silva que se movimentam no sul da Bahia não são de verdade, são, mesmo, sem-terra e agricultores disfarçados.

No mesmo dia em que li a matéria da Época, recebi um e-mail com um discurso que constava como sendo de um embaixador mexicano chamado Guaicaípuro Cuatemoc*. No texto, o diplomata de ascendência indígena, fazia, diante da Conferência dos chefes de Estado da União Européia, um pedido informal de moratória da dívida externa dos países pobres da América à Europa, já que, moralmente, não podemos dever tanto a quem nos levou muito mais.

Não sei se o discurso do embaixador mexicano que me chegou por e-mail é verdadeiro. Mas não importa, verdades como essas que ele diz não precisam de fonte, são óbvias e se sustentam sem precisar de gravações ou documentos que a comprovem. Assim como não precisamos de cabelo escorrido, olhos puxados ou pele rigidamente parda para provarmos que somos tupinambás e não morremos. A luta cotidiana contra a miséria presente ou iminente é a prova cabal de que somos os mesmos guerreiros que comiam o inimigo. Lutamos trabalhando para sobreviver, e lutamos pra que o trabalho não nos dê somente a sobrevivência. Nós não somos inimigos públicos, não espalhamos terror, nós não somos os maus. Ah, e também não somos poucos. Se estiverem assustados porque encontraram 3.000 de nós – os agricultores e sem-terra disfarçados de índios, fujam, porque somos milhões, montados nos morros que lhes espreitam diariamente. Nós não somos maus. Mas se vocês forem, tenham medo da gente.

Ainda não sei que dimensões tomará a figura de Babau. A revista o compara a Lampião e ele me parece ter mesmo a astúcia de um cangaceiro, pois, de chinelo e sem camisa, nunca foi pego pela polícias nem as milícias do latifúndio, todas armadas até o pescoço. Adoraria se ele fosse mesmo um daqueles líderes de verdade que tanto nos fazem falta. Ruim o suficiente para que a elite o chame de bandido, e bom o quanto for necessário para tirar pelo menos 3.000 tupinambás da miséria. Quero poder dizer que tive heróis de verdade. Não me interessam mais os que morreram de overdose, quero saber dos que morrem de fome.

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1 comentários :

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Laíza
AUTOR
22 de novembro de 2009 05:22

BRAVO!

tu estás cada dia mais sensacional, orgulho demais de ti!

=***

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